terça-feira, 9 de setembro de 2014

É Só Pular a Cerca



Autor: Professor Carlos Delano Rebouças Pinheiro

A infância é uma fase da vida que muitas vezes agimos impensadamente, pelo impulso, e muitas vezes se faz coisas que jamais voltaríamos a fazer na fase adulta.

Na minha época de criança não foi diferente. Quantas vezes pulamos cercas de sítios no mangue da Barra do Ceará em busca de frutas, sem mesmo estar com fome? Nem sei mais responder, mas fazíamos isso única e exclusivamente, aventurando-se, ingenuamente, buscando escapar das saudosas espingardas de sal, usadas pelos proprietários que sabiam das verdadeiras intenções daqueles que procuravam adentrar nas suas propriedades.  De fato, queriam na verdade dar-nos uma lição, diferentemente das intenções de hoje, de um mundo que predomina a criminalidade, e que quando se pula uma cerca, o objetivo muitas vezes é outro.

Esse flash back da minha vida e da minha infância fez-me lembrar de uma conversa que tive com um amigo de infância, hoje militar do exército, que muitas vezes participou de tantas outras travessuras. Contou-me do sofrimento de tantos nordestinos no interior do estado do Ceará, que não tem mais tantas cercas para pular, pois não tem mais tantos frutos, nem caça e nem aventura.  

Gente que mora às margens de grandes açudes morrendo de sede, por não ter água em seus potes, cisternas e torneiras, esperando a bênção de Deus com chuvas, somente, para que se tenha o mínimo de alegria e paz, e sem poder saltar os seus limites e saciar a sua sede.  Olha que pouco que ainda existe, é defendido agora com armas de fogo pelos donatários, impiedosamente. Cada um defende como pode o que é seu, num país onde a justiça é determinada pelos mais fortes.

Triste realidade esta nossa, nordestina, mas o que se pode fazer? Animemo-nos com as chuvas que caem no estado, pelo menos isso, pois, mesmo sendo muito abaixo do esperado, ainda servem para animar não só o sertanejo que sequer tem água para escorrer de seus olhos diante de tantas dificuldades, como também, todos nós da capital, que um dia pudemos pular tantas cercas.




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