Quintino Cunha, poeta de verdade


Oscar Araripe


Há 130 anos nascia na hoje Itapagé, Ceará, José Quintino Cunha, o mais lendário de nossos humoristas literários, o maior de nossos poetas cults.
Excêntrico sem ser snob, feio mas cativante, eternamente esquecido, sempre resgatado, Quintino Cunha figura ao lado dos grandes mestres do improviso literário ferino, como Bernard Shaw, Quevedo e Swift, sendo considerado pelo crítico Agripino Grieco “ o maior humorista brasileiro de todos os tempos”.
Homem do povo, orador nato, “virgem de funções públicas”, como se considerava, culto e boêmio, sertanejo e globetrotter, Quintino representa com perfeição o melhor da inteligência cearense. Personagem da Fortaleza risonha e moleque da Praça do Ferreira dos anos 20 e 30, dos lendários cafés Art Nouveau, Riche, Glória e do Comércio, foi jornalista idealista, germanófilo anti-Hitler, esquerdista não-soviético, utópico brilhante e sobretudo livre pensador, amante dos livros e das coisas simples do Ceará.Contemporâneo de Leonardo Mota, Gustavo Barroso, Ramos Cotoco, Gil Amora, Renato Sóldon, Guimarães Passos, Emílio de Menezes, Paula Nei e tantos outros hoje também quase esquecidos, foi homenageado por Euclides da Cunha, Guerra Junqueiro, Rostand e Émile Faguet, “o monstro da Academia Francesa”, de quem foi íntimo em Paris. Rachel de Queiroz o considerava “um patrimônio da terra” e é dele o hoje clássico verso-constatação de que “o cearense é como o passarinho: tem que voar para fazer o ninho”; verdade terrível e que nos remete não só a uma inclinação existencial, mas à dura realidade de um Ceará que, malgrado os progressos, teima em existir.É dele o axioma: “No Ceará, o sujeito nasce na Fé, cresce na Esperança e morre na Caridade”.
Longe das tristezas, contudo, era Quintino – e por isso tornou-se famoso, o mestre inconteste da boutade, da ironia cáustica, irreverente, corajosa, do melhor humorismo artístico e existencial. Suas tiradas, famosas, são sempre lembradas com simpatia, pois além da arte encerram uma filosofia de vida libertária e ética. Gênio do improviso, poeta de fôlego, nos deixou, entre outros, Pelo Solimões, livro notável e que clama por uma reedição, por seu nacionalismo e pioneirismo no uso dos temas regionais, e belo exemplo da épica presença cearense na Amazônia.
Chamado por Euclides da Cunha de “poeta de verdade”, louco lúcido entre loucos comportados, Quintino certamente vai crescer ainda muito em importância e originalidade, ‘a medida em que os cearenses forem percebendo o quanto aqui a Literatura, ainda que desamparada e pouco lida, é viva e vital, e como em nenhum outro lugar do país.
Momentos antes de morrer, sem dúvida no auge de seu fino humor, ditou seu próprio epitáfio: “O Padre Eterno, segundo / refere a História Sagrada, / tirou o Mundo do nada... / e eu Nada tirei do mundo!”.
Longa vida, portanto, ao nosso mais simpático poeta, que tanto riso e alegria nos deixou para sempre.

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